A “Serrinha” foi adotada após um historial de maus-tratos. Veio da Arrábida, em sangue, e esteve internada num veterinário
uando cheguei a casa sem ela, sentei-me no sofá, respirando, tentando recompor-me, encontrar algo que preenchesse o repentino vazio. Olhei à volta e procurei sinais que tivesse deixado. Nada, exceto os medicamentos.
A cortisona, o Flixotaide, a teofilina e os mais recentes, que a médica da urgência no domingo de madrugada, em Évora, lhe tinha receitado. A médica queria interná-la. As análises hemáticas apresentavam valores perigosos no que respeitava aos rins. Também não se podia excluir uma pancreatite. Eu disse-lhe que não a conseguia deixar ficar naqueles equipamentos de metal que têm nos hospitais, que queria estar junto dela. Respondi que a levaria à sua médica logo na segunda-feira, se me permitisse levá-la para casa com medicação para o domingo. Tinha a certeza de que aguentaria até lá. E na segunda de manhã logo se atacavam as maleitas. Fortemente. A médica pediu-me que assinasse um documento de alta contraindicada. Fi-lo. No domingo, enquanto houve luz, um sol abençoado, ela aguentou-se. Não saía da frente do recetáculo de água limpa, de onde não parava de beber. Pensei que era uma forma de se hidratar e de purificar os rins. À noite piorou, a partir das 22 horas. Estava a dormir no sofá, mas acordou numa grande aflição respiratória, que não era apenas a sua bronquite crónica. Contemplei-a impotente. E se fosse de novo com ela de Arraiolos para Évora, ao mesmo hospital do dia anterior? Sim, deveria tê-lo feito. Quando me fui deitar, senti que provavelmente não aguentaria a noite. Beijei-a, declarei-lhe o meu amor, como sempre, pedi-lhe que aguentasse até de manhã e rezei-lhe um Pai-Nosso. Depois, apaguei.Os mais ouvidos da Liga dos Inovadores, com Regina Vitório: “O mármore português foi vendido ao desbarato, não o soubemos promover como os italianos, que até têm uma qualidade inferior”
